domingo, 27 de abril de 2008

...

Sei que sou distante
Um deserto inundado
Nunca acenei para quem queira chegar
Minha arrogância, ignorância e desprezo
Por qualquer coisa que ameace entrar

Como você chegou a esta ilha?
Baixando guarda como quem deseja demorar
Foi costurando em minha alma uma outra vida
Confesso o medo de não ter mais saída
Pela primeira vez aceitei perder sentidos
Se é que havia sentidos antes de você chegar

Agora se puder mande sempre notícias
É uma forma de estar perto sem você notar
Já que é tão difícil abrir castelos
Deixar correr soltos elos
Se no fim é você quem escolhe se vai ou não voltar

Lá fora há tantos olhos, tantos risos
Aqui dentro, o desejo de te detalhar...
...cada minuto da minha solidão virando tragédia...
...quando só me resta esperar...

Oxigênio

Mar de sangue pelas calçadas
Um oceano de ilusão
Querem a explicação ao vivo
Mas sequer sabem por quem bate um coração...
Pensam que é processo químico-físico
Como se fizesse sentido simplesmente andar vivo por aí...

Vitrines vendem certeza
Acúmulo de milhagens para quem não tem direção
Andam fazendo a tua cabeça
Com novidades de farmácia para ajudar a existir

Mas eu tenho fé que só é necessário oxigênio
Quem sabe um bom café e um livro em silêncio

Em um cotidiano absurdo
Sentimentos frágeis como brinquedos de camelô
Há quem teime em mergulhar raso
E se afogue sempre num shopping ensurdecedor

Eu chego em casa sempre tarde
Como quem chega a outro mundo
O olhar da minha filha que me invade
A esperança não é bonde que já passou
Eu me redescubro, uma nova arte
Reprises de fim de noite do nosso inédito amor

Lá fora elas não sabem do que eu estou dizendo
Depois de um copo de água e um pouco de silêncio

Teus olhos ainda me fazem
Acreditar que é possível um novo mundo
Que não anda escrito em jornais
E assim, iluminar fantasmas no escuro
Crer num futuro...
...onde sair de casa não irá me assustar

sábado, 12 de abril de 2008

Nada

Hoje acordei tão distante
O olhar preso no horizonte
Esperando o que possa acontecer
Sem força para novas fontes
Sem fé de que me faça entender

Hoje acordei na tangente
Do limite que sempre busquei encontrar
Sem segredos dentro do silêncio
Eu falo só para colocar o barulho no ar

Qualquer tolice para faze contato
Reclamar que o café está fraco
Só para você dizer que eu não paro de reclamar
Dentro do meu abismo imaginário
Distante de qualquer lugar

O fato é que há dias em que não sinto nada
Nem mesmo a natural vontade de morrer
Tanto faz o sol ou a madrugada
Há dias em que eu não sinto nada...

Bom dia!

Depressão, bom dia!
Como sempre eu já sabia
Que você estava aí
Sempre na espreita; na estepe
Esperando qualquer derrapagem leve
Para vir me consumir

És minha mais fiel companhia
Nas salas cheias
Nas tardes vazias
Quer eu entenda ou não compreenda
Em dias de sol; em madrugadas sem dormir

Esta angustia inexplicável
Que me abraça em qualquer lugar
Que me cobra puxar o gatilho
Do alto de algum prédio, saltar
Para terreno inabitável
Quando me sobra ou falta ar

Parece ser minha natureza
Sem motivo aparente para o que venho sentir
Quando mesmo diante da beleza
Não um sonho ou sentimento que me tire daqui

Depressão, boa noite!
Nem quando durmo me despeço de ti
Ando até me acostumando
Com o olhar úmido por baixo dos panos
Com o cofre lacrado que carrego mim
Sem senhas e sem sonhos
Sem panes e sem planos
Até onde eu puder ir...

Convivendo e me suicidando
Um pouquinho a cada ano
Mesmo com tantos motivos para existir

terça-feira, 8 de abril de 2008

Alcance

Teu olhar para o infinito
Meu sorriso enferrujado
Encontram-se como uma ponte frágil
Pra quem já quis entender o mundo
E contenta-se com uma aspirina
Pra quem já quis ir tão fundo
E não enxerga mais diferença entre as esquinas

Desejo-te sorte
Até um outro dia, outra morte
Quem sabe outra vida
Que estanque o corte
Até outro destino, outro norte
Qualquer saída...
Há quem se engane entre certezas turistas
Há quem faça a cabeça só até onde alcançar a vista

Tua bandeira rasgada
Meu livro fechado na cabeceira
Encontram-se como uma ponte nostálgica
Para quem já quis revolução
E contenta-se com as paredes da represa
Para quem já quis um coração
E tenta drogas de todas as naturezas

Desejo-te sorte
Até um outro dia, outra morte
Quem sabe uma saída
Que estanque o corte
Até outro desatino, outro norte
Qualquer outra vida
A canção do desespero ecoa e cada esquina
Vai além do que se alcança com a vista

sábado, 22 de março de 2008

Exata mira

A diferença entre o remédio e o veneno é a dose
Entre a esperança e a ilusão é forma como a gente se move
Esperando as montanhas mudarem de lugar
E o sol derreter ruínas
Ou caminhando em busca de novas vidas em cada esquina

Às vezes não vejo bem a diferença
Entre o bote da serpente e o bote salva-vidas
Para depois do beijo, o escarro ou a mordida?

Quem disse que o sopro vem conforme a ferida?
Ás vezes é necessário procurar o vento
Ou forçar a despedida...

Entre o surto e a sorte
O mote e a morte
O vídeo e a vida
O difícil é acertar a exata medida
Entre o azul e o azar
Agredir ou agradar
Idéias iluminadas ou iludidas
O difícil é acertar a exata mira

Qual a diferença entre tantas mentiras e ter certeza?
Sabe-se lá o poder dos deuses mitológicos da ciência...
Ou dos restos de catedrais iluminando nossas crenças
Qual a diferença entre o cálice profano
E o “cale-se” sagrado?

Às vezes não vejo bem a diferença
Entre o bote da serpente e o bote salva-vidas
Para depois do beijo, o escarro ou a mordida?

Quem disse que o sopro vem conforme a ferida?
Ás vezes é necessário procurar o vento
Ou forçar a despedida...

Felicidade

Um dia de graça
...sem nada para falar ou escutar...
O silêncio sem temer a nada
A solidão como lente a contemplar
Até onde a vista alcança
Olhos misturam desencanto e esperança
Mas deixo o amor ganhar

Ela passou por mim...esteve aqui com seu sorriso
Como uma bailarina dançando na beira do abismo
Revelou-se aos mais atentos
Mas fez questão de não deixar nada escrito
Ela é artigo de luxo
Raridade ao alcance da mão de mendigos

E a gente segue assim...
...fingindo não vê nada ao nosso redor...
Mas sempre atentos, ao mercado e aos investimentos
Tudo com seu preço, nada com o seu valor

E a gente continua aqui...
...sentado numa cadeira de balanço a vida inteira...
De um lado o escuro, do outro a cegueira
Na frente um espelho; uma mira certeira

Um dia sem graça
...sem nada para comprar ou lucrar...
Uma overdose de informações desencontradas
A solidão sempre lenta a nos evitar
Até onde a vista alcança
Olhos misturam desencanto e esperança
Quando o amor irá ganhar?

Ela passou por mim...
Esteve aqui com o que tem de melhor
E eu sempre atento ao mercado e seus movimentos
Não notei que saber o preço de tudo
Tira o valor do tempo
E só a procurava nos outdoors

Ela esteve aqui
Quis me acompanhar a vida inteira
Mesmo no escuro, mesmo diante da minha cegueira
Ao meu lado no espelho, a mira certeira

Coincidência Combinada

Sem que se perceba
Algumas coincidências parecem combinadas
Passam batidas pela estrada
Enquanto a gente corre o tempo inteiro
Atrás de um sentido: quem sabe uma razão

Quem sabe não seja só estar vivo?
Quem sabe o que surge quando não há mais como procurar?
Enquanto a gente está de guarda
É na solidão e em silêncio que vaza
O real motivo que nunca esteve escondido em nenhum lugar

Sem que você queira
Não será preciso sequer acreditar
Assim como a razão tem as suas fronteiras
O fim traz em si um novo início
O escuro também ilumina uma velha canção

...que a gente assobia em solidão...
...quase como uma oração...
...para a busca de quem tanto procura...
...o que carrega na própria loucura...

domingo, 9 de março de 2008

Ao nosso jeito

Será que a gente ainda tem o que dizer...
...além do que o silêncio possa nos dar como explicação?
Além de discursos repetidos:
- “Foi o melhor que poderia ter acontecido”
- “Espero que você se encontre, então...”

Será que você acredita no que teima em dizer:
Que o futuro sequer faria sentido
Que retornaremos enfim ao ponto de início
Como se não tivéssemos passado por este lugar
Como se não houvesse passado nem vícios

Não será com a força das frases de efeito
Que não deixaremos estragos bem ao nosso jeito

Não será com a força das frases de efeito
Que não deixaremos amarras e cicatrizes
...bem aos nós sujeitos...

Então, bata a porta sem se quer me ver
Nem tente me consolar como quem...
...busca perdão para si mesmo
Se não há pecado, só castigo e desespero
Deixe que eu mesmo me encontre aqui dentro

...só será necessário silêncio e tempo...

Então, desista de qualquer intenção
Nem venha dizer que não é a melhor opção
...deixe ao menos que eu decida eu mesmo
Se não há alternativa, a não ser castigo e desespero
Enquanto eu me reencontro aqui dentro

...só será impreciso o silêncio e o tempo...

Fim de tarde

Não tenha medo
É só a cidade
Teu território é fim de tarde
Quando retornas ao lar

Não tem desespero
Se o que te escapa entre os dedos
Na noite pode se renovar
Em conversas a dois...de volta ao altar

Não peço que me entendas
Tão pouco traduzas
Basta só aceitar...
Não acompanho multidões
Dou às costas a tantas miragens
Não creio em imagens
Quando busco o encontro do teu olhar e o meu

Não precisa palavra
Para o que nos invade
Meu território é este fim de tarde
Quando sou apenas teu...

O amor é artigo de luxo
Hoje são apenas fadas e bruxos
Transformando dor em canção
Não entenda a esperança
Hoje ela apenas ilumina nossa dança
Muitos ficarão pelo meio do salão

Já nos entregamos por tanto medo
Sem ao menos deixar o tempo provar quem tem razão

Já nos entregamos com tantos segredos
Sem ao menos deixar o tempo mostrar que nem há razão

sábado, 8 de março de 2008

Casado

Olhos abrem pela manhã
Janelas orvalhadas para estradas tortas
Fico pensando em retornar para lhe rever
Como quem sai de órbita ao cruzar a porta
Durante o meu dia eu penso tanto em você
Nas tantas coisas que só a mim importa

Vago como um grão na multidão
Só ao teu lado o mundo é meu
E nada pode me atingir com força
Lá fora escapo do olhar de Deus
Aqui dentro todos os sinais me encontram

Eu só escapo de tudo porque sei
que alguém estar me esperando
E é assim que vejo
o ponteiro dos segundos do relógio rodando
Enquanto rodo por ai
Atrás de ganhar a vida, atrás de planos

O sol que faz aqui fora
Não se compara ao teu sorriso me recebendo
O que está nos livros História
É só a soma de histórias de quem...
...tenta voltar para casa mais cedo
Então, vê se não demora

As noites semparam dois sóis

Não guarde o que não podes levar
Já não basta o cemitério que carregas na cabeça
As noites separam dois sóis
É importante que a gente nunca esqueça
Para quando estivermos a sós...
...interessar-nos tudo o que o futuro nos endereça

Nunca diga adeus
A fé que se foi um dia retorna
No silêncio em que eu cultivo os meus...
...velhos sonhos em novas rotas...
Em algum lugar acharei aquele antigo sentimento
Que um dia deixou nossos corações à mostra
Mesmo que não recupere a inocência
Ouvirei a mão de Deus batendo em minha porta

Em algum lugar cinzento
Cores esperam o teu desenho
Como lágrimas que regam flores quase mortas
Como as verdades soterradas
Pelo alto preço das coisas que pouco importam
Em algum lugar...
...velhos sonhos esperam novas rotas...

quarta-feira, 5 de março de 2008

Quem sabe uma verdade...

Quem sabe a verdade nos salte
Em meio a este jogo de frases
Quando ninguém diz nada certo
Toda teoria enxerga o mundo pela metade
E há tempos os livros andam desertos
Sedento por alguém que tenha o que dizer
Decretando o silêncio de quem já não para de falar

Quem sabe nos salte alguma verdade
E nos surpreenda bem mais do que um rosto na superfície de marte
Por sempre ter estado tão óbvio em nós
Mas nunca ter encontrado voz
Nem por onde começar a nos inundar
Sedentos por um dia que nos traga motivos para sonhar
Decretando o silêncio de quem já não sabe mais amar


Quem sabe nos salte uma verdade
Que não seja decreto ou lei
Que tenha discurso nem discussão
Nem seja necessária por à luz da razão
Seja só uma verdade simples e tão direta
Feito porta aberta para todas as partes
Que já estiveram seladas dentro de nós
Quem sabe uma verdade salte da nossa voz

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Visível

Meu olhar se molha
Ao olhar o seu
Meu olhar te devora
Quando seu olhar demora
E desmorona o meu
Meu olhar se molha
Devolva agora
Meu olhar é teu
Meu olhar ateu

A sorte

A sorte é só um corte no destino dela
Que trouxe o que poderia ser uma manhã por uma janela
E ela não viu
Porque preferiu
Mal dizer a chuva que sobrevivia em sua lembrança
Com um pé nas fotografias amareladas
Soltou a mão da esperança
E voltou a dormir...
A sorte foi um corte que sarou, sem direito a existir

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Saudade

Que sagrada seja sempre a saudade
Que me dá de verdade o exato valor do amor que tenho
Desta mulher que me inunda e me invade
Que é meu todo e minha metade
Que corrige meus rumos nas estradas loucas de meus devaneios
Que é meu céu para todo inverno
A certeza de que um cais me espera nos sinais de caos

Que sagrada seja sempre a saudade
Que sinto na rua esperando a hora de retornar
Quando desenhamos nossas cidades bem diferentes das multidões
Que sagrada seja sempre esta verdade nossa anfitriã
Que me dá o exato valor do que construímos até aqui
Que sagrada seja a saudade
Porém que nunca dure além do necessário
Para ser precisa no ato de novamente nos reunir

Quiçá

Quiçá eu pudesse pegar
As palavras que você me diz agora e se espalham pelo ar
Para nos dias em que você não vier
Eu nem pensar em perder a fé
Porque com elas enrolado eu vou estar

Quiçá eu pudesse morder estas manhãs
Em que o vento traz o doce das maçãs
Como se fosse um banho de esperança
Quiçá pudesse guardar nos pés os passos da dança
Quiçá eu pudesse não acordar
Só para não te ver partir
Meus olhos abrem e você não estar

Como eu queria pegar
A felicidade e guardar
Para não gastar tudo de vez
Pois sou condenado a ser assim
Sou só feliz em excesso
Assim como excesso sou triste também

Dentro dos olhos

Olhe dentro do teu silêncio
O que ainda explode em você
O que procuras em meus olhos como se fosse uma velha fotografia
O escuro te aperta dentro do infinito e ilumina segredos
Em meio a tantos medos perdemos o encanto do que sonhamos um dia

E distante ficou o som da canção que a gente entoava
Quando o céu parecia ser todo nosso limite
E a gente voava e cantava ainda que em desespero
Agora, a quem eu quero enganar de terno e gravata
Se espelho sempre denuncia alguém que quer acordar

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Não é minha

Posso tentar te explicar minha tristeza
A solidão de quem eu sou
Enquanto a tarde passa sem surpresas
Sem que você note onde estou
Posso te mostrar os versos que ainda não fiz
Ao abrir meu silêncio sem calor
Só não posso evitar que você abra a porta
E deixe dentro de mim tudo o que um dia nos importou

Vou ficar aqui, guardado no passar do tempo
Esquecer das horas até me perder
Relendo cartas e fotografias
Quem sabe até falando às noites vazias o que nunca soube dizer
Talvez ainda haja em algum dia
Alguém que me encontre por você
Porque hoje parece não ser minha a estrada com a qual fiquei

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Torcida de fé


É preciso senha para sonhar aqui
Banquetes ao dono banco
Quem banca as cores daqui
Pinta céus e terras com cheques em branco
E você ainda rir...
...deve mesmo é estar brincando...

Crente que estar feliz
Crente que faz parte dos planos
Mas só quem tem senha passa existir
Enquanto a felicidade passa por debaixo dos panos

O que você espera...
...enquanto outros dias esperam por você?
Será que você já era antes mesmo de um plano B

É preciso senha para estar aqui
Eles tem a bola, o jogo e o campo
A torcida é só um detalhe por aqui
Uma canção perdida em milhares de anos
O resto é para inglês vê
De resto só os velhos planos

O que você espera...
...enquanto outros dias esperam por você?
Será que você já tem roteiro para os próximos sonhos

Pelo mais simples


Pelo mais simples
De encontro ao vento
Sobrevivendo ao tempo
Sem temer sonhos que nos uniu

Ainda acredito
No que se traduz só em silêncio
De olho no infinito
Nenhuma palavra vai nos resumir

Pode ser que seja
Dores postas em lente de aumento
Nosso sofrimento
Pode nem ser tão bem assim...

Mas nosso silêncio em carne viva
A qualquer momento vai transbordar
Cobrar com juros e sentimentos
O sonho que plantamos em algum lugar

Quanto te faltou fé na estrada
Qual foi o novo caminho que teu coração abriu?
Quando acordastes assustado na madrugada
A verdade pareciam bombas caindo de um avião

Quem vai explicar as cores
Do que teu novo quadro?
Quem possui autoridade para ter razão?
Pelo mais simples é ser pelo mais natural


crédito da foto: Sionelly Leite